Domingo, Agosto 17, 2008

DA MAÇONARIA DOS RESSENTIDOS*

I – Confissão de um membro honorário.

Esse meu problema de só conseguir falar palavras que não representam em significado nada do que eu realmente estou sentindo está prestes a me colocar, pela segunda e definitiva vez, em seríssimos apuros. Agora percebo que por toda minha vida me dediquei a construção de uma armadilha para mim mesmo e num transe louco e hipnótico rumo agora em direção ao perigo com a consciência plena do meu destino, mas ao mesmo tempo impedido por uma força maior de recuar. Como aquela lâmpada azul que fazem os mosquitos voarem para a morte em sua direção. Eu sou o mosquito e as palavras que se formam na minha boca me traindo ininterruptamente é a luz azul que tenho absoluta certeza finalmente acabará comigo. Os dias continuarão passando, mas eu terei que, pela primeira vez, conviver com a consolidação de meu maior fracasso até o fim de minha fatídica existência.

As palavras escritas acima me denunciam como um mentiroso de marca maior. Mas talvez não seja nada disso. Talvez não seja tão grave, talvez seja muito pior. Atesto minha incapacidade com o manuseio de palavras e minha absurda falta de talento em conseguir me fazer entender pelos outros alertando ao leitor que não existe recompensa na insistência de leitura dessas confusas linhas a não ser a resignação de que o tempo, ao contrário do que o senso comum diz, não vale absolutamente nada. Afirmo de antemão, portanto, que o poder que minhas palavras tortas tem de provocar outros não afetarão, com absoluta certeza, àqueles que agora se dedicam sem nenhuma pretensão de estímulo didático, informativo ou intelectual a essa leitura. Dedico, portanto, essa tentativa de me explicar aos desapegados, que não me excomungarão pelo tempo perdido com a apreciação desse texto. Desde já também me eximo de qualquer culpa. Já avisei que possuo um discurso deveras duvidoso. Que nada do que eu digo deveria ser escrito, e que o reverso da sentença é real. Nada do que eu escrevo deverá algum dia ser repetido em voz alta. Principalmente para aqueles que dizem me conhecer muito bem. O eu aqui apresentado será tão outro, tão irreconhecível, que se o que eu estou aqui prestes a relatar for reproduzido em voz alta em uma roda de algum evento social ou ao pé do ouvido no leito da intimidade, a fama de mentiroso e vil será do reprodutor da notícia, do mensageiro, e não de mim que tenho perfeito conhecimento da fama que sustento aos olhos daqueles que me prezam e que, para minha profunda infelicidade, são milhares.

Já enganei muita gente e me arrependo. Isso não quer dizer que irei parar. Minha intenção aqui não é pedir absorção de nenhum dos meus pecados. O circo que eu criei é maior do que eu e sempre foi. Aprendi a forjar o que eu sinto muito cedo. Nem posso dizer que aprendi ser assim, que foi um ensinamento ou a conseqüência de alguma decepção que sofri ainda muito jovem. Para mim essa maneira de agir, de ser, sempre foi a única maneira. Quando percebi que existiam outras alternativas mais comuns e menos dolorosas no comportar social era tarde demais e uma vida falsa já estava erguida a minha volta com alicerces sólidos e firmes. Minhas palavras nunca foram trêmulas e minha confiança encenada fez com que eu me tornasse esse homem de aço, esse super homem que nunca se reconheceu como tal de frente ao espelho.

Isso me faz pensar na vaidade que homens como eu possuem. No apavonamento de colegas que estufam o peito e se aplumam ao reconhecimento mais nefasto de seu brilhantismo. Eles parecem tão felizes e ainda assim nunca estão satisfeitos. Nunca quis isso para mim e ironicamente foi assim que eu me criei. Meus elogios valem algum dinheiro, minhas críticas valem ainda mais. Sou um homem rico vivendo num mundo patético que dá louros a cretinices como as minhas, e isso não é a pior coisa que poderia ter acontecido comigo, apesar de me provocar desesperos noturnos madrugada sim madrugada não.

O que eu estou querendo dizer é que o buraco é muito mais embaixo. Minha fortuna talvez seja apenas um indício de que eu sou esperto e sei trabalhar bem com as adversidades. Mas meu sofrimento real está em outro lugar e sempre esteve. Acostumei-me a dizer que amava a quem só me despertou desprezo e disse que nada sentia àquela única criatura que um dia pareceu chegar perto de conseguir legitimamente me despir, me descobrir, me libertar. Neguei o que eu era para a pessoa que conseguiu realmente me enxergar sem disfarces. Fantasiei-me ainda mais, me camuflei entre os desprezíveis e depois de obter quase fracassos nas minhas inexplicáveis tentativas de não me revelar a quem depositava uma incrível fé nos meus sentimentos mais íntimos e irreveláveis, apelei para humilhação pública. Coloquei-a em seu devido lugar na frente de todos quando sempre soube que ela estava muito acima de mim e que se o mundo fosse justo eu que teria que lutar para estar ao lado dela. Fi-la acreditar que tudo o que eu dizia era, então, verdade, e durante anos achei que ela tinha desistido de mim e migrado para uma vida perfeita, simples e feliz com outro qualquer. Que soubesse dizer-lhe o quanto ela era bonita, especial e única, mesmo que para ele ela fosse apenas conveniente e ele se visse obrigado a forjar inverdades para se proteger (o quê eu não duvido, incontáveis são aqueles que sofrem dos mesmos males que os meus).

Passaram-se anos e pouco me importa a coleção de mentiras, de exageros, de vilanias, de sonsices, de manipulações que elaborei aos olhos e ouvidos do mundo na tentativa de passar os dias sem sofrimento da única maneira que eu sei, fabricando falsas verdades aos carentes de opinião. Mas ela voltou e tudo está diferente. Ela quer me ver, ela quer se encontrar comigo. Ela me telefonou e foi de uma doçura tão intensa, como se voltássemos no tempo e o que eu fiz a ela num passado longínquo, mas não tão remoto, nunca tivesse acontecido. Marcou um encontro e agora me encontro já há meia hora sentado no meu carro de luxo estacionado numa rua deserta sem coragem de sair. Não sei se ela está sendo sincera ou se finalmente aprendeu o meu jogo e me conduz rumo ao precipício em sede de vingança. De uma maneira ou de outra tudo o que eu mais quero é encontrá-la e dizer que se algum dia existiu alguém que estava certo era ela. Que ela é a única que me conheceu, que me enxergou, que me viu. Mesmo que ela risse e me botasse no meu lugar, seria uma humilhação doce e libertadora. Basta eu falar o que eu sinto. É simples. É impossível. Sei que meus passos me levarão a pior das forcas e meu talento em manipular as palavras de um jeito que todos admiram e eu desprezo fará com que eu a perca para sempre. Irão me restar aqueles que me idolatram e que eu exterminaria da face da terra se tivesse os poderes divinos que finjo achar que mereço para não transparecer meu medo absoluto de existir do jeito que eu sou e ninguém nunca soube, a não ser você, persistente leitor, que chega agora a última linha desse enfadonho testemunho e que vive em nenhum lugar além da minha imaginação.

Barbara Kahane



*título retirado de verso da música anilina john de augusto malbouisson.

Quinta-feira, Julho 17, 2008

O Cara de acaso




O Cara de acaso avança silencioso, estende a mão, quer bocejar mas esquece que é um ser desbocado. Descola devagar os cílios úmidos de Aurora enquanto seu melro policromático desenrola uma cortina de gorjeio onírico para que ele possa despreocupado se vestir com as imagens recolhidas dos olhos negros da pequena. Aurora se espreguiça, boceja uma brisa nos campos. Já estava pronta para tomar seu café da manhã atrás das montanhas quando reconheceu o canto do pássaro do Cara de acaso ecoando no sudeste. E pensou: Puta que o pariu! Que massada! Esse Cara de acaso insiste em roubar o caderno onírico do meu jornal mental! E assim sai Aurora pelo dia à caça do acaso. Desistiu, como sempre, lá pelas cinco e tanto. No dia em que o melro morrer, Aurora deixará de comer fora e ficará sonolenta como gosta atrás da linha das montanhas, e os dias passarão a ser como o humor dos contemporâneos esquizóides, angustiados, sem grana, putos, mas contando piadas e fazendo amor: claro/ escuro / claro / escuro / claro / escuro

A.M

Terça-feira, Junho 10, 2008

Sopa de Dúvida



Ela vive pendurada ao Postan, sofre de inversão térmica contagiosa, aderiu à anti-ginástica por indicação de uma amiga, à reflexologia por intuição, à estimulação russa e ao rivotril para o mundo virar jegue dócil e oferecer suas rédeas de espuma. Tem tendinite, bursite, fascite plantar, esporão de calcâneo e precisa de um tratamento por ondas de choque. Ele vai sucumbir de disciplina em cinco dias se não parar de achar que amanhã já é ontem.

Pausa

video


Dentro de instantes ofereceremos nosso serviço de bordo.

Pratos indicados para ambos:

Sopa de dúvida

Deixe a posta de dúvida descansando no pátio entre dois dias e quinze drinks. Descasque a aurora, corte o precipitado de tu é fera em cubos e misture os dois numa cumbuca repleta de louva-deuses bombas carregados de anedotas e frases de efeito nas antenas. Separe as antenas. Bata tudo no liquidificador de inversão térmica feminina e dê um tibum na praia mais próxima. Visualize as Cagarras se possível. Prenda o ar da praia na boca e volte correndo para casa. (Respire pelo nariz, peça pão de mímica). Sopre o ar nos dois lados da dúvida, decore com as antenas e pense se vale a pena servir e arriscar uma sistite.

Ela acha melhor frango, ele também.
- Será que eles tiram a cebola se eu pedir?
- Se não tirarem eu a tiro.

Ela não riu, ele sim, tanto que achou que era a chance de entretê-la e cativá-la (cativá-la, apesar do que quer dizer, tem um som que parece querer dizer outra coisa que não sei, talvez relacionado à uma etapa da feitura de um licor de batatas... se algum leitor tiver sugestões que se adaptem melhor ao campo semântico aéreo sente à vontade) contando anedotas das antenas dos louva-deuses:

O otorrino era um velho antipático e babão. Atendia ao telefone resmungando, abria a porta desabafando um “Pois não?” amargo. Comigo, era sempre assim. Porém, naquele dia, enquanto eu esperava para fazer uma lavagem de ouvido, ele estava carinhosamente atendendo um moça de voz meiga do Espírito Santo. A sala de espera, sem portas, só com as dobradiças enferrujadas à mostra, era ao lado da sala de consulta. Uma espécie de ouvidoria das queixas e hipocondrias latentes dos pacientes que ofereceriam ouvidos e gargantas às cataratas de baba do velhinho......
....................................................................................................... Aí a menina disse: Mas papai, se o dinheiro ficar na poupança tanto tempo ele vai apodrecer!” ... Filhinha, hoje é dia de sopa de dúvida?

A.M

Terça-feira, Maio 13, 2008

A AUTOCOMISERAÇÃO DE JOÃO S

Não tentes consolar o desgraçado
Que chora amargamente a sorte má.
Se o tiraste por fim do seu estado
Que outra consolação lhe restará?
(Do Pranto, Mário Quintana)




Possivelmente acho essa vida uma merda. Não tenho certeza, mas os indícios ficam cada vez mais fortes conforme os anos passam e eu cada vez mais velho e infeliz. Alimento um profundo desprezo pelos outros. Por qualquer um. À primeira manifestação interpretei esse sentimento como pena e durante muito tempo acreditei que eu sentia uma enorme pena pela humanidade. Hoje vejo que não. Aquilo que sinto pelos outros, por qualquer um, é desprezo.

Nessa maldita festa de fim de ano do escritório eu tenho a nítida certeza que posso morrer a qualquer minuto. Uma certeza absoluta. Quando cheguei nesse restaurante a quilo fétido fechado pela empresa para essa absurda comemoração, meu coração se encheu do mais profundo desprezo por toda a humanidade e desde então essa sensação de morte me acompanha nos cantos à meia luz dessas ridículas iluminações de néon. As luzes frias alternadamente acesas junto às decorações de enfeites de papel crepom verde e vermelho que tomou todo expediente das secretárias em alvoroço pela tarde na distinta responsabilidade de ornar o salão, simplesmente me embrulham o estômago e eu sinto que se não acabar vomitando na cara de alguém meu coração irá parar. De uma maneira ou outra estou pronto para, ainda que involuntariamente, acabar com essa festa despropositada e ridícula que esse bando de pessoas armou e eu aqui me obrigo aturar.

Garçons de uniformes amassados perambulam pelo salão com bandejas repletas de cerveja. Os patrões prometeram cerveja à vontade e parece que o trato, pelo menos nessa primeira hora, está sendo cumprido. Pego um copo e sem surpresa constato que a cerveja está quente. Os patrões hora nenhuma se comprometeram oferecer a cerveja prometida gelada, portanto pego o meu copo com um simulado sorriso de gratificação e me sento num canto escuro numa das poucas mesas ainda não ocupadas por ninguém. Espero que aqui eu seja tão apagado como faço questão de ser no escritório e ninguém note a minha presença se sentindo no dever natalino de tentar me fazer interagir. Prefiro esse canto escuro com a minha cerveja quente e o meu poder de observação melancólica desprezando cada indivíduo que cruza o meu olhar.

Ontem Renata olhou nos meus olhos e me disse que tinha certeza que eu nunca tomei uma decisão certa na vida. Durante todos esses anos em que estamos juntos ela decididamente nunca viu isso acontecer e pelo histórico que eu apresento através da minha relação com família, trabalho e amigos, ela chegou à conclusão irrefutável que eu nunca, jamais, em qualquer dia da minha existência fui capaz de tomar uma decisão que valesse à pena. Minhas escolhas, segundo Renata, são sempre as piores. Acho que ela tem razão porque naquele momento em que ela acabou de proferir essas considerações eu escolhi não esmurrá-la na cara, escolhi não abandonar o apartamento batendo a porta ferozmente rumo à noite escura. Ao invés disso eu não fiz absolutamente nada. Ou melhor, eu escolhi abrir a porra de uma lata de cerveja quente e choca e me sentei no sofá sem deixar sair um pio da minha boca. Renata então começou a gritar, espernear até finalmente sair ela pela noite escura. Renata não me viu chorando. Renata bateu a porta rumo à noite escura e quem ficou no sofá chorando como uma mulherzinha fui eu.

Renata é muito ponderada e sempre tem razão. Foi assim desde o dia em que a conheci. Todos os amigos de Renata a procuram porque ela é a voz da razão. Suas opiniões são sempre levadas seriamente em consideração e normalmente seus conselhos são seguidos à risca por aqueles que a rodeiam. Eu respeito essa característica de Renata tentando sempre esconder a minha irritabilidade quando ela cheia de pompa e orgulho define uma verdade como uma doutrina a ser seguida pelos seres inferiores que tem a graça de seu convívio. Eu me irrito com Renata, mas me reconheço também como um ser inferior perto das certezas dela, portanto se ela me disse que tem certeza que eu nunca fui capaz de tomar uma decisão certeira na vida, ela possivelmente tem razão. Por mais que eu despreze hoje em dia Renata e esse seu pseudodom que nada mais é do que um poder perverso de controlar as pessoas, ela tem razão e eu nunca tomei uma decisão certa na vida.

Existiria alguma escolha não feita por mim que me levasse efetivamente a uma vida que não essa? Existiria algum lugar ou tempo no mundo ou espaço em que eu não sentisse esse profundo desprezo pelos outros e essa maldita pena de mim? Tenho muita raiva porque não tenho dinheiro, mas eu seria um homem sem raiva se o tivesse em demasia? Tenho uma raiva descontrolada de Renata por ela nunca ter podido me dar filhos, mas eu teria menos raiva se os tivesse? E se essa onda de desprezo se aplicasse também a eles não seria mais um motivo de sofrimento para mim? Mais uma razão para eu me sentir patético ao ver que existe da minha parte desprezo em relação a eles? E ainda pior, se eu os enxergasse como meus espelhos e sentisse pena de suas condições? Que tipo de indivíduo se torna uma criança criada sob os lhos penosos do pai? Talvez minha única decisão certa na vida tenha sido escolher permanecer com Renata todos esses anos mesmo sem ela poder me dar filhos, já que raiva eu sei que sentiria de qualquer uma que se propusesse dormir e acordar comigo. É uma condição irremediável e pelo menos as certeza de Renata me guiam, ainda que eu não entenda o caminho e despreze profundamente a direção.

Possivelmente acho a vida uma merda, e tem piorado. Sinto culpa quando me escapole um sorriso sincero ou quando acho graça genuína de algo que não seja alguma pilhéria maldosa contra alguém. Uma culpa que me consome porque imediatamente ao instante do alívio vem à lembrança o desprezo que eu sinto ininterruptamente. O desprezo que é maior do que tudo com exceção dessa pena profunda que eu sinto de mim.

Ontem Renata bateu a porta e desde então só faço beber cerveja quente. Começou ontem no sofá enquanto eu chorava sozinho a falta das irritantes certezas de Renata e agora num canto escuro desse restaurante tétrico sinto que está longe de acabar. O garçom é o único que me nota e me serve de mais um copo. Coloco dez reais no bolso de seu paletó para que as coisas permaneçam assim nesse quilo de quinta e suas luzes de néon. Não venho aqui há três meses quando achei uma lesma nojenta no meu alface. O velho gerente não me cobrou o prato, mas se sentiu no direito de cobrar pela coca. Eu escolhi não vomitar na cara dele e fui embora para nunca mais voltar. Os patrões prometeram cerveja a festa inteira e eu agora estou aqui, de volta, sentindo um profundo desprezo por eles, pelos meus colegas, por esses garçons obrigados a servir cerveja quente, pelo gerente velho que bajula os patrões fingindo depositar gelo filtrado em seus copos de uísque, e por qualquer um que se atreva passar diante dos meus olhos. Possivelmente acho essa vida uma merda e neste restaurante desprezível eu sinto que posso morrer. Tenho a leve impressão que Renata nunca mais voltará.

BARBARA KAHANE

Domingo, Março 30, 2008

Leitornitorrinco






Insólito sim foi quando lá pelas tantas, após ter salvado o ânimo da baleia de sono que ataca no café, de ter atolado a fé na vida no ócio rançoso das três da tarde, de ver o entusiasmo como um teco teco desgovernado raspando as poças de marasmo tépido que meus vizinhos de mesa tomavam com adoçante, de ter acompanhado o mal humor da moça da biblioteca sumindo ao celular, eu sentia às cinco da tarde a concentração vagar como um turista desatarefado num vasto lago de subterfúgios do estudo, onde o som metálico das gavetas se abrindo vinha na verdade das gaivotas de Hugo Pratt deitadas na estante ao lado, cujos olhos na capa, como os meus na cara, eram dois pontos pretos a cambalear entre as rachaduras da infiltração, urubus retorcidos do céu descascado, e o papel bege da página povoada de verbetes obsoletos do Grande Tratado dos Seres, que eu lia para a prova.

Depois de numa retomada de fôlego alcançar a parte em que se elucidava a ética do ornitorrinco fêmea, mais precisamente na oitava linha do terceiro parágrafo da página 3467 do Tomo 3, eis que um final de frase inusitado dá as caras: “... e para tal, a fêmea nunca deixará de esquecer o guarda-chuva na toca.”

Seguia-se a esta inacreditável revelação sobre os hábitos da senhora ornitorrinca uma nota de rodapé, que, pensei, esclareceria o caso. Mas, para coroar minha incredulidade, quando lá chego, leio: “BANHO”...BANHO!. Do banho saía uma seta mal traçada em caneta bic, um fantasma de seta que definhava pelo pé da página até morrer em outro comentário, escrito por ninguém mais ninguém menos do que alguém entre os milhares de leitores que já haviam freqüentado a biblioteca desde 1975, ano da incorporação do Grande Tratado ao acervo:

TOMO CHUVA
FICO NEVE
CÂNDIDO

E foi um toró na poça descascada do meu turista desatento. E foi um avião estraçalhando as gaivotas de café morno retorcido quando li, depois do “O” final de Cândido, entre parenteses : “ver apêndice 9”.

Lá vou eu para o apêndice 9, mais precisamente para a página 10476, cujo título já não me surpreenderia: “Cândido, assinatura ou luar tão?”. Cito apenas um trecho para dar idéia da fria em que eu me metia: “Talvez, assim como omitira o um banho de da primeira linha e o fico branca como da segunda, o comentarista tenha também omitido o oh luar tão da última.”

A.M

Terça-feira, Março 18, 2008

PRESSENTIMENTO

Hoje, estatelada na cama já quase às duas da tarde, Clarice chorava. Era um estômago que doía, que ardia, que queimava. Eram lágrimas de todas as dores do mundo. O estômago acima de tudo. O estômago acima da cabeça. O estômago acima do coração. O estômago acima da vida.

Clarice não se lembrava como havia chegado em casa na madrugada anterior mas lembrava-se de ter saído vestindo a saia florida comprada para ocasiões especiais em três prestações ainda não quitadas. A saia que hoje, às duas da tarde, Clarice via amarrotada jogada no chão no canto do quarto. O estômago ardendo como o inferno na cama e a saia especial suja e amarrotada no chão.

Ontem, quando Clarice tirou a saia pendurada em um cabide do armário, tinha a estranha sensação de que aquele seria um dia especial. Sem nenhuma razão específica, Clarice acordou pensando na saia e isso lhe soou como presságio a ser respeitado. Clarice usaria a saia e algo especial e inesperado aconteceria. Hoje, Clarice chorava.

Como ontem era para ser o dia, Clarice também não economizou no perfume. Era um perfume caro e Clarice só usava-o em dias especiais. Já que havia tirado a saia do armário, não existia motivo para economizar no perfume. Para se usar aquela saia, tinha-se que estar com um certo cheiro e o cheiro certo vinha engarrafado para ocasiões como esta em uma garrafa cara que jazia no aparador do banheiro.

Quando saiu de casa, Clarice já sabia que daria as mesmas aulas particulares para seis adolescentes temerosos de reprovação, como toda sexta feira nos últimos oito anos ela fazia sempre que o terceiro bimestre das aulas iniciavam. Os anos passavam mas as sextas feiras eram sempre as mesmas, com as tardes dedicadas às aulas para engrossar o orçamento do mês. Aulas para os mesmos adolescentes que mudavam um pouco de feições e de nomes mas sustentavam os mesmos gostos, as mesmas manias, o mesmo jeito tempestuoso e mimado, os mesmos ídolos, o mesmo cheiro da puberdade, os mesmos rostos maltratados por espinhas, as mesmas mães com seus cheques gordos.

Quando saiu de casa, Clarice também já havia recebido ligações e torpedos confirmando a mesma cerveja de sexta feira no boteco em que ela e um grupo de amigos freqüentavam há dez anos. Era um boteco na Lapa que era o mesmo boteco desde que a Lapa às sextas feiras não era freqüentada muito por ninguém e Clarice ainda era uma estudante do curso de História. A Lapa encheu e o boteco sofreu reformas no banheiro e no uniforme do garçom Marcos que apesar das cores diferentes do avental ao longo dos anos não perdia o hábito de reservar a mesma mesa no canto da pequena varanda para o grupo que toda semana se reunia lá. Clarice sabia que encontraria, sentados quase sempre na mesma disposição, a Marta, a Teresa, a Estela, a Joana, o Paulo, o David, o Bento, o João e os Pedros (Drummond e Xavier). Esse era o mesmo grupo de sempre e mesmo que a comunicação tivesse evoluído ao longo do tempo com o surgimento de torpedos e scraps a tradição continuava a mesma. Aquela sexta feira não seria diferente, mas Clarice sentia que o dia não era um dia como outro qualquer e assim saiu de casa com a saia ainda não quitada inteiramente e o perfume caríssimo e economizado a cada gota.

Hoje a saia está amarrotada no chão do quarto e a garrafa jaz um tiquinho mais vazia no aparador do banheiro. O estômago dói e a memória não a deixa lembrar muito bem de como chegou em casa. Talvez Teresa tenha-lhe dado uma carona, talvez Xavier tenha se aproveitado e a deixado na porta de casa roubando-lhe um beijo na portaria. Clarice teria declinado com educação ou retrucado com um tapa? Clarice teria aceitado e o chamado para subir? Pelo cheiro do seu quarto Clarice sabia que havia dormido sozinha. O cheiro do quarto quando Xavier insistia subir era completamente diferente. O cheiro do Xavier provocava dores no estômago em Clarice mas ela imaginava que esse não era o motivo da agonia de hoje.

Clarice se lembrava que aceitara um generoso gole do conhaque de Xavier quando viu que nada especial aconteceria de fato. Já era uma da manhã e tecnicamente o dia acabara e nada acontecera. Clarice se lembrava de sentir que não tinha certeza de nada. Clarice se lembrava de se sentir profundamente decepcionada com a sorte do dia. Clarice se lembrava de olhar Xavier e perceber que talvez seu nariz não era tão torto e suas piadas não eram tão ruins. Nem essa sensação era novidade e Clarice se lamentava de nunca ter conseguido aprender que quando ela começava a olhar Xavier dessa maneira era hora de parar e dar fim ao dia. Clarice se lembrava de não querer dar fim ao dia, de querer se prender a ele, de querer ter o poder de parar o relógio, de pensar que a esperança é a última que morre e nada acontece por acaso. Mas já passava da uma da manhã, cada vez mais já passava da uma da manhã, e nada novo e surpreendente acontecia a não ser o nariz de Xavier que ficava cada vez menos torto e as piadas de Xavier que pareciam cada vez melhores.

Clarice se lembrava de ter pensado por um segundo que usar a saia e o perfume para Xavier era um grande desperdício. Talvez Clarice tenha se levantado nessa hora e pego um táxi. Talvez Clarice tenha chegado em casa sozinha e acordado agora com essa dor no estômago. Essa dor de estômago em conseqüência de um dia em que nada acontecera. Um desperdício de dor de estômago. Talvez essa dor, sim, tenha sido obra do acaso. Quando ontem saiu de casa com a saia especial, Clarice não imaginava que hoje estaria assim.

Clarice, estatelada na cama já quase às duas da tarde, chorava e sua saia, abandonada como um trapo velho no canto do quarto, parecia agora ter as flores murchas. Dentro de cinco dias venceria a última prestação.

BARBARA KAHANE

Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Auto-remodelagem, desordem e progresso



Encontrei esta carta dentro de uma garrafa de Miolo, boiando na piscina da cachoeira da trilha da Pedra da Gávea:

"Com o calor da subida, o corpo perde consistência. Fenômeno que traz possibilidades pouco exploradas pelos suantes e suantas de ancas depiladas de hoje, excessivamente preocupados em estancar a fonte de suor que escorre da testa usando a mão como toalha, quando poderiam espertamente aproveitar a progressiva maleabilidade da carne para pressionar o rosto com as pontas dos dedos. Ao invés de usá-los para apontar, sedentos, garrafas d'água que brotam das mochilas alheias ou despenhadeiros que parecem gente, os trilheiros poderiam desfrutar das vantagens oferecidas pela auto-remodelagem. Esta técnica, desenvolvida pelos intraterrinos - seres que habitam o interior da Pedra da Gávea - consiste em remodelar o rosto à imagem de alguma formação rochosa que se assemelhe a um. Uma vez isto feito (evitarei os detalhes do passo a passo, que é simples, bastando concentrar-se na imagem da pedra em questão e cavar dois buracos na região ocular, como se ela fosse feita de barro informe), é preciso apenas repousar por alguns instantes à sombra, sem ingerir líquido, para obter o efeito. De volta ao sol, basta piscar lentamente os olhos duas vezes para vermos a paisagem através dos olhos da pedra. A pedra vista no alto da foto acima é a preferida entre os intraterrinos mais saidinhos. Lá, à noite, costumam pousar cardumes de naves espaciais, e os intraterrinos que estiverem experienciando uma estadia na cabeça da pedra, são agraciados com uma delirante massagem na careca e nos ombros quando desembarcam os extraterrestres com suas pequenas patas gelatinosas.

Quem nos revelou estes segredos foi Verne, um intraterrino gente fina que auxilia os humanos na escalada da Carrasqueira.

Vendo a empatia de Verne junto aos humanos, Jules, um intraterrino cisudo e desconfiado que não vê com bons olhos a aproximação entre seu povo e os incautos que perturbam a paz da encosta, ajoelhou-se na ramagem, e com voz altiva disse:


ãÅÎÙ ÎÁ ÒÁÓÓÙÌËÉ
íÏÓË×Á - ÒÕÂ. ÉÌÉ íÏÓË×Á ÀÒ.
ÒÕÂ. ÉÌÉ ó-ðÅÔÅÒÂÕÒÇ - ÒÕÂ.
ÉÌÉ òÏÓÓÉÑ - ÒÕÂ. ÉÌÉ õËÒÁÉÎÁ - ÒÕÂ.
ÉÌÉ ëÁÚÁÈÓÔÁÎ - ÒÕÂ. ÉÌÉ âÁÛËÏÒÔÏÓÔÁÎ -
ÒÕÂ. ÉÌÉáÍÅÒÉËÁ - ÒÕÂ. ÉÌÉ çÅÒÍÁÎÉÑ - ÒÕÂ. ÉÌÉ

O que Verne, visivelmente emocionado, prontamente traduziu:

"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso."

Verne declamava procurando em nossos olhos a aceitação, num carioquês penoso e emocionantemente esforçado, cerrando as sombrancelhas verdes como se a clareza da linguagem fosse um suco de lembranças extraido do brilho de suas retinas chorosas. Gesticulava tão enfaticamente suas pequenas garras, remexendo sem reparar sua calda escamosa pra cima e pra baixo a cada sílaba destacada, que pensei se tratar de uma questão de vida ou morte ele ver a comoção estampada em nossas caras. Mas a essa altura a lambança da desordem reinava... alguns urinavam no mato, outros estranhavam a tradução de Verne durar o triplo do tempo do discurso original proferido por Jules. Outros, impacientes, confabulavam cervejas na Barra ao fim do dia. Um casal de intelectuais alcoolizados balbuciava que as palavras eram todas tiradas de um texto manjado de um tal de Wagner Banjamin (ou algo assim). Eu já não via muito bem entre a cortina de suor salgado que pendia dos meus cilios, nem escutava por conta das cigarras alucinadas, e o resto do grupo não prestou atenção em xongas, estavam mais preocupados em enxugar suas testas em chamas de um calor da porra...

Quanto a mim, espero que faça bastante calor quando eu for trabalhar amanhã de manhã.

Rio de Janeiro, 12/09/1996"

AUGUSTO MALBOUISSON